Quando a Morte lhe Acerta pela Primeira Vez

pupilas

Um tio distante da criança havia morrido, ela foi ao enterro acompanhado de seus pais. “Questão de educação filho, vamos larga seus brinquedos”. A criança não tinha ideia do porque de ter que ir, “o que deveria ter naquele lugar”, provavelmente pensou aquela cabecinha ainda inocente.

Fizeram uma pequena viagem até a cidade onde ocorria o velório e depois o enterro. O garoto se divertia no banco de trás do carro, se debruçava sobre a janela que abria só até a metade; seus pais já haviam dito que isto era perigoso mas o garoto só se preocupava com a sensação do vento batendo em seu rosto, perguntava-se se era isso que os passarinhos sentiam quando voavam.

Mas finalmente chegaram na mórbida reunião, muitas pessoas chorando, a “vovó” do garoto, suas tias e tios, os primos mais velhos ficavam sentados no banco quietos. Não fazia sentido à inocência uma reunião familiar onde as pessoas estivessem tristes. Então, agarrado à mão da mãe, seguiu até onde o corpo estava sendo velado.

O que ele viu foi aquele homem que ele via nos finais de ano, seu tio, o cara que contava piada bobas e dava moedinhas de bom princípio; ele estava deitado em uma caixa, de olhos fechados e com dois tufos de algodão no seu nariz. A primeira reação da criança seria rir daquela situação se não tivesse visto antes a expressão de tristeza que surgia no rosto de seu pai.

“Vamos, dê txau para seu tio”, o pai falou baixinho.

A criança se sentiu confusa mas estendeu a mão para o tio, que não devolveu o cumprimento, ela abaixou sua mão sem entender o que acontecia mas falou: “Txau tio…”

E assim seguiu o velório bem como o enterro; depois, quando voltava para casa, a criança perguntou a seus pais porque estavam enterrando o “tio do bom princípio”.

Daí começou uma das mais tristes explicações que se deve dar à uma criança cheia de vida, que uma hora a vida acaba e então a morte chega. Triste, apesar de inevitável, é duro não poder dizer isso de uma forma mais suave.

Mais triste ainda é quando os olhos da criança se dilatam de medo, pois, depois de um raciocínio quase imediato, ela também percebe que também vai morrer um dia. E chora o choro do mais triste, o choro do medo, o choro do definitivo, o choro da saudade.

É doloroso imaginar pela primeira vez que um dia, você vai perder uma pessoa que faz parte da sua vida íntima, é duro imaginar que certo dia você vai parar e não vai poder cumprimentar mais as pessoas. Talvez, mais dolorosa que isso é a certeza que, uma hora ou outra, você vai acabar pensando nisso tudo de novo e de novo… E vai ter que sofrer antecipadamente.

O pai da criança, que já passara por esse processo várias e várias vezes fez o que achava preciso, quando chegou em casa abraçou o filho e disse:

“Vem cá, pare com isso, nós ainda estamos aqui, vamos tomar sorvete, você vai ter que ajudar o pai, o pote deve estar preso na geladeira”.

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