Em uma gaveta suja e empoeirada

Memories_drawer_by_eXcer

“Estou olhando para você, agora, há meio metro na minha frente. Você está conversando com ele e eu estou me sentindo um psicopata que vai contra a si mesmo pensando nestas coisas; mas seus olhos estão brilhando, eu estou vendo.

Ai você vira, nota que estou ali na sala de aula também e o seu encanto se quebra, quase por um segundo apenas, é verdade; pois logo depois você volta a olhar para ele.

Você o acha uma boa pessoa e, de fato, ele é. Você o vê como uma pessoa inteligente e, adivinha, ele é inteligente mesmo. Eu nunca fui, e nem pretendo ser, um imbecil ciumento. Mas você me olhava, ao menos um pouco, assim para mim.

Você começou a sorrir, exatamente neste momento, você não está só feliz. Por favor, não me deixe notar seu sangue correndo mais rápido por suas veias, mas então você engole um trago de ar, respira mais ofegante.

Sinto lágrimas surgindo em meus olhos, mas eu não choro, não mais. Por erros já cometidos antes eu não consigo mais, mas mesmo assim continuo cometendo os mesmo erros de sempre.

Não posso pensar que fui colocado em segundo plano, pois nunca pedi a você para ficar em qualquer um, mas me arrependo, agora, enquanto estou te olhando, de não tê-lo feito. De não ter feito nada. E acredito que permanecerei assim.

São “inconfortantes” esses segundos que então se passam. Deu o tempo e estamos saindo, ele passou pela porta, você seguiu na frente, olhando as costas dele. Penso – já que é a única coisa que faço – que vou sozinho para casa, eu preciso disso agora.

Ps. para a senhorita T.: Saiba que o texto não tem intuito nenhum de causar mágoa, ele não foi feito para que um dia você possa encontra-lo, se o encontrar, por favor, não leia; se ler, por favor, não me diga. Mantenha um sorriso ao me dar bom dia, e sigamos assim.”

março\2011

27 antes da Chuva

Logo que sentia a umidade no ar, gostava de sair no quintal e sentar no chão. Encostado na parede e inclinando a cabeça para cima começava a divagar junto ao vento que batia em seu corpo, bagunçava sua roupa e depois ia embora.

Ficou estático por alguns minutos até se dar conta que estava em posição fetal; embaraçado consigo mesmo, descruzou os braços e esticou a perna. Chacoalhou a cabeça, o vento ajudou a desorganizar todo seu cabelo.

Notou que os pássaros começavam a voar, certamente sabiam da chuva e se preparavam para voltar aos seus ninhos. Entretanto, percebera que um pássaro ficara ali, em cima do telhado, era magro, parecia um pássaro negro, mas provavelmente era enxergado assim por causa das sombras das nuvens.

As nuvens como qualquer uma de outro momento nos enfeitiçam com suas formas. Então, notara que um tigre surgira no meio de tantas outras nuvens, estava em sua posição de ataque e a cada minuto que se prendia o olhar no animal, ele parecia abrir mais sua grande boca e ensaiar um rugido até que o barulho de um trovão surgira do nada. Os olhos se fecharam em um reflexo, quando tornaram a abrir o tigre havia sumido; em seu lugar a cabeça de um dragão aparecera.

Apenas a cabeça, o corpo parecia se esconder atrás das casas, onde o campo de visão de quem observava não alcançaria, parecia estar sorrindo, “que dragão bobo, um tanto quanto engraçado”. Fora tão bobo que não notara quando um vento jogou para longe suas partículas, embaralhando-as em algo novo.

O vento batia em tudo, batia na roupa, no cabelo, no dragão… E batia também nas plantas. Foi ai que a percepção ficou nas plantas, todas elas passaram a se mover em um mesmo ritmo: as folhas dos coqueiros falsos, as gramíneas que ficavam entre as rachaduras do chão e até os galhos de uma roseira seca que ainda estava lá. Até o mais descrente olharia para aquilo tudo e acreditaria piamente que um deus existia. Havia um ritmo, um movimento, algo espiritual parecia perpassar não só por tudo que era aquilo, mas também por aquilo tudo.

Após sua introspecção, sentiu um movimento estranho naquela atmosfera. Olhou para um lado, olhou para o outro até que percebera…, o pássaro, ele continuava no mesmo lugar de antes.

Ele mexia sua cabeça desesperadamente, – olhava para a esquerda, olhava para a direita, esquerda, direita, esquerda e então novamente para a direita -, era provável que assim estava por causa do vento e do barulho dos carros e dos cachorros dos vizinhos, mas então, ele parou; fixou o olhar para o ser curioso no chão.

Ambos ficaram dois segundos se encarando, mas poderiam ter sido três horas. Pensaram: “Será que está com a asa quebrada? Será que precisa de ajuda? Se continuar ali talvez não consiga voltar seco para sua casa”.

Pequenas gotas frias começaram a cair do céu; um levantou voo em direção ao seu ninho, o outro para dentro de casa.

Venha aqui…

… vou te contar um segredo.

Queria falar que durante o último mês eu me apaixonei por você, seu rosto sonolento quando te encontrava de manhã me fazia borbulhar mas eu sabia que, quando em meio a aula de quinta, você dava um bocejo era porque tinha se esforçado na noite anterior fazendo o que devia ser feito. Eu sei disso, você mesmo que me dizia.

E quando nos falávamos eu parecia provar um gosto extra daquele dia, desde daquele seu simples “Bom dia”. Que dias!

Se esforçava e era inteligente, se mostrava alegre e tinha um sorriso gentil. Um sorriso que encantaria qualquer um, inclusive a mim; oras pois, se não estava enfeitiçado com tudo isso que era você eu não sei mais o que ocorria comigo.

Certo dia, estava pegando um ônibus e te vi andando na rua, sozinha. Meu primeiro impulso foi de pedir para a pessoa ao meu lado dar licença para que eu pudesse apertar o botão que avisaria o motorista  que alguém precisava descer no próximo ponto. Mas não fiz isso, pensei em você e hesitei.

Hesitei não porque achava que algo entre nós nunca daria certo, ou que você era perfeita demais para mim, – só te conheço por um sorriso e algumas conversas soltas.  Não tenho medo da rejeição de um pedido, eu temo que esta simples ideia que construí de você seja arruinada pela complexa ideia que tenho de mim mesmo.

Quando dei por mim já estava no portão de casa procurando as chaves para poder entrar. Entrei, guardei as coisas que estavam comigo e tentei passar o resto do meu dia como se nada tivesse acontecido e, pensando agora, realmente nada aconteceu.

Portanto, não pedirei nada a você, isso não é uma declaração de amor, mas certamente não é uma de ódio.

Só queria dizer que você parece ser uma linda pessoa.

pessoa sentada de costas

Algo inútil sobre “isso” de novo. Este “tal amor”.

Quão gasto é este assunto, quão louco e quão forte. Está em tudo, está em todos, nem sempre com o mesmo nome, nem sempre com o mesmo sentido, mas está lá.

As sensações que o carregaria, as línguas já trataram de fazer metáforas: da ultra-excitação e do nervosismo para a ideia de se ter “borboletas nos estômago” ao estado do “fora do comum” e desorientação para a  ligação com o “estar em queda”¹.

A verdade, é que muito tentamos falar sobre ele e o que só conseguimos é idealizá-lo. Eu não sei se já senti, de fato, o que tal idealização me sugere, só sei que na busca pelo “tal amor” aprendi que ele não é a coisa mais bela, mas mesmo assim chega ser quase perfeito.

Porque pensar por paradoxo? Porque tudo que adquirimos na busca pelo amor, alguma vez nos fez de otário, um bobo da corte, um cego, um surdo e nos maltrata. Os sentimentos na verdade nos cortam, entretanto, com o tempo aprendemos que estes mesmos sentimentos que passam um canivete pelo nosso peito são os mesmos que curam a ferida e que dão os pontos. Não raramente, são eles também que nos injetam uma dose grande de êxtase, o que faz valer toda a dor sofrida no processo.

Amor é…

É aquilo que se colava nos álbuns de figurinhas ², mas também não é, eu acho que não é, mas eu sequer sei o que é. Então não sei.

E me calo, chega por hoje.

Imagine que esse "vento" seja cortante e medicalizante rs(espero que alguém tenha notado este comentário)

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¹ Falling in love –> Apaixonar-se.

² Álbuns de figurinha “O Amor é…”: http://retromotoca.wordpress.com/2008/07/16/album-de-figurinhas-amar-e/

A Jovem deitada em um dia quente

Então ela deitou em sua cama, jogou o cabelo que estava na frente do seu rosto para trás. E mesmo sabendo que não conseguiria dormir ou, ao menos, descansar; fechou os olhos de uma forma um tanto quanto brutal, desejava que não fosse mais capaz de levantar suas pálpebras.

A lâmpada de seu quarto ainda a atordoava, a luz passava por sua pele e cegava aquilo que já era escuridão. Problemas simples que acabam acumulando, brigas, notas ruins, noites mal acontecidas com as pessoas erradas; e o que poderia fazer (?), sair mais para o “lado de lá”? Ela não gostava do que via naquele lugar,então, para que?

Colocou seu braço esquerdo em cima de seus olhos, finalmente a luz cessara, mas agora, sentia o peso.A culpa era dela no final das contas, por confiar pouco nas pessoas e às vezes por também confiar demais, a preguiça, a desatenção, o descaso, a rede de mentiras que formara. Que lixo de pessoa tinha se tornado.

Relaxou as pernas, estufou o peito dando uma grande tragada de ar e…

…respira…                                                  …respira…

Ela queria “ele” ao seu lado, mas este morava cinco quadras e um infinito de sua casa, tão perdido quanto ela, mas mesmo assim ela o desejava em um abraço no travesseiro: segura; em cada lágrima que escorria no canto de seus olhos: limpa; e em cada tragada de ar que já dera: viva.

Finalmente abriu os olhos e olhou para a parede.

“Eu só queria poder terminar a droga do relatório do meu projeto…”.

O Puto Sádico

Não era religioso mas ele estava fazendo sua oração naquela noite:

“Pai, por favor dê saúde, amor, integridade e vida a todos aos meus amigos,aos meu inimigos, a minha mãe, meu pai, meu irmão e minha irmã, bem como o restante da minha famíli…”

O telefone tocou.

“Alô?”

“Filho, a sua avó acabou de morrer…”

“Quê?!”

Virou uma garrafa de vodka velha que estava na geladeira, não estava acreditando, não queria acreditar. Tinha falado da vó dias anteriores. “Nós temos que visitá-la…”

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Dois meses depois, estava o jovem na frente de seu computador, e por ter ouvido “se fiquei esperando meu amor passar” a poucos dias ficou repetindo o último trecho da música:

“Cordeiro de deus que tirai os pecados do mundo
Tende piedade de nós…
Cordeiro de deus que tirai os pecados do mundo
Tende piedade de nós…
Cordeiro de deus que tirai os pecados do mundo
Dai-nos a paz…”

E ainda estava cantando o trecho quando soube que um de seus companheiros morreu. Um acidente na rodovia.

Não conseguia pensar outra coisa senão um “De novo! Porque?! Porque?! Ele estava aprendendo a tocar violão,caramba!! Ele estava aprendendo a tocar violão…”

Sentindo música: Pink Floyd

Pink Floyd foi uma banda inglesa que surgiu em 1965, e teve seu auge nos anos 70 lançando incríveis músicas como Wish You Were Here e Shine On You Crazy Diamond[1975], Echoes[1971], Breathe[1973], as três mais representativas do álbum Animals (Dogs , Sheep, Pigs)[1977], além é claro da ótima,- e mais conhecida- sequencia de Another Brick in The Wall [1979].

Pudera eu conhecer mais, beeem mais, sobre essa banda. Portanto, dadas minhas restrições e o curto espaço aqui neste blog para tanto coisa boa, colocarei os vídeos de minhas favoritas, algumas acompanhadas de letras outras somente para vocês curtirem o som. Pois me parece que tanto quanto a própria produção na letra, a composição da música foi muito bem trabalhada, (mas muito bem mesmo!), não podendo ser caracterizada nada mais nada menos do que MAGNÍFICA!

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Another Brick in the Wall (Pt. 2)

“Nós não precisamos de nenhuma educação
Nós não precisamos de nenhum controle de pensamento
Nenhum humor negro na sala de aula
Professor, deixe essas crianças em paz
Ei! Professor! Deixe essas crianças em paz
Em suma, é apenas um outro tijolo no muro
 No fim, você é apenas um outro tijolo no muro”

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Wish You Were Here

“Então você acha que consegue distinguir
O paraíso do inferno
Céus azuis da dor
Você consegue distinguir um campo verde
De um frio trilho de aço?
Um sorriso de um véu?
 Você acha que consegue distinguir?”

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Dogs

“E passado algum tempo
Você pode trabalhar em pontos por estilo
Como a gravata
E um firme aperto de mão
Um certo olhar nos olhos,
E um sorriso fácil
Você tem que passar confiança
 Para as pessoas que você mente”

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Echoes

(Bom, essa é a minha favorita)