A Sombra é meu Espelho

Durante um ataque de ansiedade, que eu não sabia exatamente de onde tinha vindo; arrumei meu corpo na posição que aprendi para realizar um pequeno exercício de meditação.

A alguns anos uso da meditação para me sentir melhor, sem envolver qualquer relação com espiritualidade e muito menos religiosidade, realizo esse exercício com um único intuito: PARAR.

Já era noite, e ali estava eu: tronco ereto, luz do quarto desligada, rosto sem expressão, ventilador levemente ligado, corpo relaxado.

Não sou do tipo que usa de um mantra para a concentração, gosto de ouvir minha respiração enquanto estou de olhos fechados e tento me focar em não me focar em nada.

Naquela noite, em especial, o exercício estava extremamente difícil, não conseguia finalizar o ciclo da respiração mais do que 5 vezes que tudo vinha explodindo, novamente, à minha cabeça.

Mas, então, acabo abrindo os olhos e noto que não tinha tirado a televisão da tomada e uma luz de seu display formava na parede uma sombra suave de meu corpo. Encarando minha sombra iniciei um exercício diferente:

A sombra é meu espelho

Apenas uma imagem

Distorcida

Cravada

Em uma parede

Seu contorno

É possível seu contorno

Ser mais escuro do que seu interior?

Encaro a sombra

Pois a sombra é meu espelho

Encaro então minha imagem

Sim

Apenas minha imagem

Me concentro e

De alguma forma

O contorno da sombra some

Bem onde estava minha cabeça

Vejo luz

Brotando da sombra

Isso é possível?

Me pergunto

Não deveria

O contorno escuro

Volta

Faço um esforço

Novamente

A sombra

Que é meu espelho

Luta comigo

Respira

Luz

Concentra

Pergunta

Contorno

A sombra

Não é meu espelho

Eu sou a sombra

Quando a Morte lhe Acerta Mais Uma Vez

Estava em outra madrugada qualquer, mexendo no computador, quando senti uma tremenda fisgada no canto da barriga que fez levar a mão até onde doía.

“Caralho!”

Era na região no apêndice e lembrei que já tinha desmaiado no hospital e tomado soro por duas horas num “susto” de apendicite. Eu também me lembrei de como o médico empurrava a sua mão na minha barriga no canto direito perguntando se eu tinha dor, disse que era uma espécie de teste para saber se tem algum problema.

No último susto não doía a região exata do apêndice, eram outros problemas, mas fiz questão de lembrar a posição e a força que ele usou no teste para que eu pudesse fazer sozinho quando suspeitasse.

Nesta outra noite doeu, e como doeu. Deitei na cama, me contorcia de dor, a cabeça chegava ir para frente e mordia os beiços.

Junto à dor eu me desesperava, lembrava da primeira vez que tinha ouvido falar sobre apendicite, foi um amigo meu que contou a história:

“É perigo puro, djou, pode ser a qualquer hora e às vezes você nem nota; meu tio teve apendicite, enquanto estava dormindo, ai deu hemorragia interna e ele morreu, sem saber. Meu pai teve também, só que ele conseguiu notar e foi para o hospital fazer a cirurgia. É foda, você pode morrer e nem perceber. Temos que estar sempre atentos.”

Este amigo meu morreu dois anos depois, num acidente de moto ridículo.

Mas lembrei, mais uma vez, de como deve ser morrer. Pode ser a entrada para um outro plano, o lance da luz e blá blá blá, eu esperava isso naquela hora, mas podia ser pior. Podia ser o Nada. Simplesmente nada.

E ai talvez seja um dos problemas de morrer, o medo de morrer em geral não está na morte em si, “o processo”, mas no temor egoísta do fim de sua existência, “a consequência”.

 “Eu posso não estar mais aqui?!”, é isso que pensamos. Às vezes pensamos naqueles em quem vamos deixar saudades, mas é o medo de não existirmos que está no pensamento “EU NÃO QUERO MORRER!”.

E lá estava eu sendo egoísta também, comecei a pensar no que eu tinha que terminar, minhas provas da faculdade (!), tenho que ir trabalhar (!), queria acordar amanhã cedo (!)

A dor diminuiu e aquele trecho do Dylan me surgiu na cabeça, “That he not busy being born Is busy dying” (Que aquele que não está ocupado nascendo está ocupado morrendo).

A consequência é certa e inexata, mas eu estou no processo porra e não vou levar numa boa. Peguei um livro de literatura com sacanagem “à lá” Henry Chinasky que gostaria de recomendar a qualquer um que estiver lendo estas palavras, pois eu sei que todas as pessoas gostam destas coisas; refiro-me à literatura.

Fui ao banheiro, sentei no vaso, encostei a nuca na parede e com o braço direito ergui o livro aberto na altura dos olhos.

E comecei a ler aquela sacanagem; refiro-me à vida.

Introspecção na Calçada de Tijolos Brancos

Aqueles dois estavam conversando enquanto caminhavam para algum lugar, dentro de silêncio que se mostrava um tanto quanto incômodo antes de quebrado.

“E ai, como segue sua vida?”, perguntou um deles.

O outro ergueu a cabeça e olhou para o seu companheiro de caminhada:

“Acho que a vida está me dando os mesmos problemas que já tive como prova a ser cumprida. Ela parece querer saber se, de fato, eu amadureci, ou se cometerei os mesmos erros de antes. Tomando as mesmas atitudes ou não tomando atitude alguma.”

O primeiro caminhante, aquele que fez a pergunta, se assustou, esperava uma resposta automática como um “a vida vai indo” ou um simples “tudo bem”, mas não. Ele recebeu um desabafo, palavras tristes, ou talvez apenas perdidas.

“Bom, mas você sabe, às vezes a vida lhe da limões para que você possa fazer uma limo…”

“Não!”, interrompeu bruscamente o companheiro, “A vida me deu ‘nada’ e é com isso que com que eu tenho que lidar.”

Colocando a cabeça inclinada de lado e já se arrependendo de ter feito a maldita pergunta, o outro disse não ter entendido bem o que estava querendo ser dito ali:

“Como? O que você está querendo dizer com isso tudo?”

Este recebeu a sua resposta depois de uma pequena risada.

” É simples , a vida em geral, parece ser um composto de calçadas formadas por tijolos brancos, a calçada de cada um parece Continuar lendo

“Sentidos Confusos” em Piadas de Barzinho

“Você já notou que usamos duas partes do nosso corpo e não só a boca para sentir o gosto das coisas? E não seja o espertinho dizendo que é a língua, você me entendeu; agora, coloque sal na ponta de seu dedo tampe o nariz e então salpique sua língua. Eh, você não está sentindo o gosto e se está o sal nem parece tão salgado assim. Eu não sou das biológicas para explicar o porquê, só pare de cuspir o maldito sal, falei para colocar pouco, não virar o pote!

E os ouvidos? Sabia que não precisamos de todo o aparato de fora – esses orelhões – para poder ouvir sons? É sério, já existem fones de ouvidos que você os coloca para vibrarem certos ossinhos dentro do ouvido e então você simplesmente consegue escutar tudo! Que?! Não, imbecil. Quem cortou a orelha foi o Van Gogh, o Picasso não cortou nada de si.

O nariz também não escapa desta! Sério, quer ver? Chegue perto da fumaça deste cigarro, está sentido o cheiro, certo? Ok, agora abra sua boca…

Porque do nervosismo? Só porque eu Continuar lendo

Uma Amante no Trem

Ana nos seus lindos vestidos. Pega o trem! Atravessa a neve! Vá e encontre o fatídico.

Mas Anna, que cara é esta? Não tem nada nela.

Karina, não dê conselhos se você também erra, não dê conselhos se você vai errar. Erre da forma certa, e simplesmente acerte, ou não.

Vá, Karen! Roube-o dela! Ame-o! Beije enlouquecidamente seu novo homem, seu verdadeiro amor. É o seu primeiro?

Chore, menina! Pois o amor é belo mas também é cego, por isso não deve sê-lo nem um nem outro. E assim o é, “seu homem”, “seu amor” não está mais contigo.

Karenina, eles estão todos te olhando? “Olhe o que você fez!” O que você fez? Onde estão seus filhos? Onde está seu antigo marido? Você realmente não quer perdão? Tudo bem, já que não deve nada.

Está ouvindo o barulho do trem, Anna Karenina?

Onde você está indo, Anna Karenina?

Qual é o barulho dos trilhos, Anna Karenina, qual é o barulho dos trilhos?

Quando a Morte lhe Acerta pela Primeira Vez

pupilas

Um tio distante da criança havia morrido, ela foi ao enterro acompanhado de seus pais. “Questão de educação filho, vamos larga seus brinquedos”. A criança não tinha ideia do porque de ter que ir, “o que deveria ter naquele lugar”, provavelmente pensou aquela cabecinha ainda inocente.

Fizeram uma pequena viagem até a cidade onde ocorria o velório e depois o enterro. O garoto se divertia no banco de trás do carro, se debruçava sobre a janela que abria só até a metade; seus pais já haviam dito que isto era perigoso Continuar lendo

Sobre o Assalto e o 5º Andar da Biblioteca

Em um banco velho que ficava atrás da biblioteca da faculdade estava sentado um jovem, lá pelos seus dezoito ou dezenove anos, estava quieto, mas parecia que no fundo esperava alguém. Mexia na sua bolsa, procurando alguma coisa que precisava, ou então apenas para não ficar parado. Parar realmente é algo chato.

Passaram-se uns vinte minutos e o jovem, que permanecia ali, começou a olhar a garota que chegava e parava no banco ao seu lado, uns 2 metros de distância. Ela sentou e começou a mexer em seu celular; alguém poderia pensar que estava mandando mil mensagens para alguém, o jovem ao seu lado provavelmente pensou o mesmo, pois parou de encará-la e se virou com cara de desolação. Mas se ele tivesse continuado a olhar, poderia ter notado que ela estava se divertindo com algum joguinho no aparelho. Talvez para passar o tempo, como se também estivesse esperando algo.

Entretanto, o garoto tornou a olhar para a moça que sentava ao seu lado Continuar lendo